50 tons de roxo
Luis Fernando Verissimo
- Entre, entre. Me dê o seu casaco.
- Obrigada.
- Se quiser tirar mais alguma coisa...
- Não, estou bem assim.
- Talvez mais tarde.
- Talvez. Lindo o seu apartamento...
- Eu sei. Além de ser rico e bonito, eu tenho muito bom gosto.
- Esse moço pendurado na parede...
- É um sobrinho do Picasso. Comprei em Paris. De hora em hora, ele desce daí para descansar, fazer xixi ou se alimentar. Depois volta para a parede.
- Que luxo.
- Você ainda não viu nada. Vamos passar para a outra sala. A que eu chamo de meu laboratório lúbrico. É onde faço minhas experiências.
- Meu Deus, quantos objetos sexuais!
- Tenho um fornecedor que me manda todas as novidades. Algumas eu ainda nem descobri para que servem. Esse tubo de borracha com a ponta serrilhada, por exemplo. Por enquanto, eu uso para coçar o pé.
- Posso me sentar nesta cadeira?
- Pode. Só cuidado porque...
- Ui!
- Eu ia lhe avisar. Ela é uma Cadeira de Afrodite. Quando menos se espera, sobe um pénis rotativo.
- Eu senti. Você diz que é aqui que faz experiências?
- Sim. Por exemplo: estou no meio de uma pesquisa sobre os efeitos do chicote na pele feminina. Cada pele fica um tom de roxo diferente. Não existem dois hematomas iguais.
- Que coleção de instrumentos!
- Sim, há de tudo. Bolotas japonesas. Garrote francês. Arreios.
- Estas algemas... Eu gostaria de experimentar.
- Fique à vontade. Mas é melhor tirar a roupa primeiro.
- Certo. Posso lhe fazer uma pergunta?
- Claro.
- De todas aquelas mulheres na fila para ver o filme, por que você me escolheu?
- Na verdade, faço a proposta para várias. Digo "venha comigo e terá experiências muito mais excitantes do que as do livro, e do que as do filme, então, nem se fala. E será ao vivo!". A primeira que aceitar, vem. Desta vez foi você.
- Será que eu vou me arrepender?
- Até agora nenhuma se queixou. Vamos começar com quê? Faça a sua escolha.
- Hmmm... Eu ouvi você falar em arreios?
Domingo, 29 de março de 2015.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.